terça-feira, 22 de maio de 2018

Palavras ao sabor da aragem

Cristopher Mckenney

Invento e planto palavras
Desbravo-as como sementes sensíveis
Esbanjadas em seu destino incerto

Insertas em fragmentos de papéis
Saltimbancos de sonhos
Ou apenas barcos amarrotados

Resvalando destes dedos
Tropeçam desavindas
Sem força de vontade

E na doçura da tarde
As minhas mãos soltam as letras
Pela janela ao sabor da aragem

E algures elas serão sementes
Em pomares de letras
Que alguém ainda vai ler

©Piedade  Araújo Sol 2018-05-21

terça-feira, 15 de maio de 2018

Este silêncio

Este silêncio moribundo
Entranhado na triste condição de ser mortal

Nas entrelinhas da tarde que antecede a noite
Leio o abraço nostálgico das sombras
Em centelhas de saudade
Na ilusão que arquitectamos no toque dos dedos
Enlaçada no tempo
Que julgávamos imperecível

Lá fora há luz e confiança
Há a Primavera imperturbável
No olhar das crianças
Que corre devagar
No declínio das memórias dos dias findos.

©Piedade Araújo Sol 2011-05-03

terça-feira, 8 de maio de 2018

Sonho tatuado


Diggie Vitt

Sonho tatuado a fogo de monogramas de ternura
Disperso na candura das águas-furtadas de alfazemas
Escondidas na partilha de um sonho insaciado
Em manhãs solarengas ou tardes cinzentas de chamas

Nas mãos trémulas cobertas de fascínios irrefreáveis
A tatuagem forma-se livre do sonho fundeado
Deslizando em espirais e ecos de afáveis murmúrios
Com os dedos sempre enlaçados em toadas uníssonas

E lá fora a cidade fantasma é uma ilusão impertinente
Onde os rostos não sabem nem sequer imaginam a tumulto
Do teu e do meu corpo voluteando nos próprios sentidos

Envoltos em planícies de trigais numa volúpia crescente
Incendiámos a nossa pele em fogos-fátuos alvoroçados
Na pira em que ardemos abraçados no sonho tatuado

©Piedade Araújo Sol 2008-04-06

terça-feira, 1 de maio de 2018

Sonata

anna o. photography
Há tantas coisas que não dizes e eu sei!

Leio-as quando passeio meus olhos pela tua face macia como a pele de uma criança, e estremeço cada vez que repouso meu corpo junto do teu, como se de um campo de papoilas envolvesse a atmosfera metamorfoseada em ópio.

Tudo é tão espontâneo e ao mesmo tempo tão problemático quando amamos.

Há tantas coisas enigmáticas acarretadas pela noite, e os sonhos ficam herméticos.

E eu sinto que é Maio e que as palavras não são necessárias, quando vagueio contigo pela noite e com as estrelas, e quando apoio meu rosto em teu ombro, acho que tens asas que me levam a sobrevoar os céus carregados de anjos.

E vejo os caminhos do sol que acariciam teu corpo feito querubim e bebemos o néctar das papoilas que inundem o meu leito feito tela pincelada onde o teu cabelo reluz, embriagando-me de abismos em que me enleio completamente alucinada na nudez da beleza do teu corpo completo.

És uma partitura que eu leio enquanto dedilho meus dedos ágeis e seguros nas teclas do piano que irradiam gemidos de ternuras infindáveis…

 © Piedade Araújo Sol  2007-05-26

terça-feira, 24 de abril de 2018

abril


eram tão jovens.   ainda tão jovens.  em cada dedo traziam um sonho na velocidade das palavras.   apenas palavras.   traziam em cada dedo cravos rubros,  que se perderam no tempo.   no destempo de outro tempo sem tempo.   era abril dum ano, um outro ano,do ano em que em cada dedo traziam um sonho silente.

sonhos destapados
cravos amputados
cravos em sangue
em mágoa
em raiva
abril de cores desbotado
correndo
célere em precipícios cavados, encontrados
sonhos moribundos

lunáticos - talvez.

eram potros selvagens
eram tão jovens, ainda tão jovens.
.
©Piedade Araújo Sol 2011-04-25
(reeditado)

terça-feira, 17 de abril de 2018

Eu escrevo insónia

omar ortiz
Dizias que eu, quando me sentia triste, ia para casa
e escrevia um poema.
.
Mas eu faço poemas mesmo quando não estou triste,
escrevo apenas palavras que brotam de mim
e que ficam ali no papel,
apenas isso. Amanhã, nem eu própria nem ninguém
se lembrará mais delas, das palavras.
.
Eu escrevo insónia e ninguém entende.
E não há motivo aparente para entender.
E se me apetece ligar para ti, não o faço
porque não tenho nada para te dizer,
era só para ouvir a tua voz, mas tu nem irias atender,
porque estás atulhado em trabalho e eu sei que
é verdade, sei, mas não sei se sei aquilo que penso que sei,
porque eu escrevo insónia, e é só uma palavra.
.
Todas as noites antes de adormecer eu escrevo um SMS,
mas não te envio. Leio e depois apago.
Eu sei que tu dirias que não tinhas tempo de ler
E que isso são coisas de putos
E eu volto a escrever insónia.
.
Ninguém sabe que a noite pode não ser igual para todos,
pode ser terrível
de onde saem todos os espectros que nos assolam e
nos transmitem medo.
.
Eu escrevo medo e ninguém tem medo.
Ninguém tem medo do meu medo.
Ninguém quer saber a cor do medo e afinal sou só eu
que tenho medo,
que desfio as cores complicadas que ele emite.

E de que serve escrever insónia?!
Ninguém se lembra…
Ninguém tem medo das palavras que não mostro…

© Piedade Araújo Sol 2012-10-17
(reeditado)

terça-feira, 10 de abril de 2018

esse olhar

katharina Jung

esse olhar que inunda a teia,
da memória alongada,
raiz,
de um tempo esculpido na utopia,
minha,
ou tua, ou até e só nossa.

imóvel, na placidez que escorre,
por entre as memórias,
não é  apenas um olhar,
mas uma luz que ateia,
a noite e,
que perdura no tempo.

e ainda e sempre o teu corpo,
será um porto de abrigo.

©Piedade  Araújo Sol 2018-04-09

terça-feira, 3 de abril de 2018

Tempo

Damian Drewniak
A chuva entrelaça as gotas
Entre a vidraça e o baço
E a chuva que cai lá fora
Também cai dentro de mim
O olhar tomou conta dos gestos
Ou na incidência das gotas

 ©Piedade  Araújo Sol 2018-04-03

terça-feira, 27 de março de 2018

A quietude das águas

Diggie Vitt
O poeta chegou em Março, com o frio e a neve ainda no sangue.
Pediram-lhe que falasse da quietude das águas.
 Ele sorriu, porque sabia que do sossego nada sabia.
Nele, só existiam inquietações e tormentas.
O poeta olhou o céu e sentiu frio. 
Foi nessa altura que se olhou, já de pé, num banco de pedra.
 E falou do choro dos outros.

Alguns repararam que o poeta estava completamente nu.

©Piedade Araújo Sol 2009-03-17 (reeditado)

terça-feira, 20 de março de 2018

não era ainda o tempo

norvz austria
Para Graça Pires
não era ainda o tempo
a noite gerará um novo dia
para que consigas
pousar os teus lábios no poema.

e sabes que é como uma nascente
que quando nasce brota água
a diferença é que não será água
mas apenas letras que encalham no papel.

talvez nem sempre tenham o esplendor de uma
alvorada incandescente
mas nem sempre tudo será rubro
alucinado de fogo em ascensão.

pode surgir do nada,
e a tua alma limpará as janelas sombrias
e as abrigará de novo dando guarida
ao novo cantar dos pássaros.

nascerá em  toda a ternura tresmalhada
e na inquietação em desordenação
que se prenderá nos relógios
do tempo e do poema.

©Piedade Araújo Sol 2015-03-20 (reeditado)