terça-feira, 14 de novembro de 2017

a lengalenga das mãos

Istvan Sandorfi
Eu podia pegar nas tuas mãos e dizer-te palavras bonitas e sei que elas já não significam nada.

Naquele outro tempo, eu pegava na tua mão e ela segurava a minha, assim, como se fossem as duas uma só.

E hoje as tuas mãos devem segurar outras que se encaixam nas tuas, como as minhas, um dia se encaixaram.

E eu podia escrever textos e cartas e até poemas, com palavras belas e cheia de ternura, mas eu não sei se alguma vez, o significado que eu lhe daria, seria compreendido por alguém.

E eu sei que a vida é bela, e não sei porque, às vezes, eu vejo a vida a passar e fico para aqui alheada dela.

Queria escrever que a felicidade é sentir que a solidão afinal pode ser compartilhada, e que as minhas mãos por vezes ainda sentem o calor das tuas, embora os meus dedos, já não se entrelaçam nos teus, e, penso que elas, as tuas mãos continuam macias e levam outras mãos a caminhar pelas palavras bonitas que eu podia dizer e que sei escrever e que talvez hoje já não significam nada...

© Piedade Araújo Sol 2007-01-11

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Uma história sem história

Anka Zhuravleva
Não escrevi uma, mas, várias histórias que falavam sobre ti.

Desenhei várias vezes o teu rosto sobre as águas do rio, mas, tu rias e dizias sempre que eu era muito complexa, e que ninguém pode desenhar nada sobre as águas, e, muito menos o teu rosto.Mas,eu sempre fiz isso e ainda faço.

Hoje as bátegas de chuva que caíram desamparadas sobre as águas do rio, fizeram-me acreditar que, afinal, o teu rosto, não é a única coisa que eu posso desenhar nas suas águas...

Também posso desenhar a minha mágoa, e assim talvez me sinta mais desprendida desta amargura que me abraça como uma teia e me aniquila vagarosamente.

Não escrevi uma história sobre ti. Mas várias, muitas delas pela alvorada dentro, quando a saudade me fazia avivar ainda mais a falta da tua presença.

Hoje estou aqui de pé junto da janela que dá para o rio, desenho nos seus vidros ofuscados pelo vapor que sai da minha respiração, um barco que vai embora e lá dentro em vez de um marinheiro, desenho uma sombra abstracta que simboliza a minha mágoa, que retrata a minha e a tua história sem história..

© Piedade Araújo Sol 2006-10-31 
(reeditado)

terça-feira, 31 de outubro de 2017

eu posso desenhar um poema

Pier Toffoletti
eu posso desenhar um poemaé como escrever, só que de maneira diferentecom o meu desenho eu posso transmitir a sensibilidade das palavras que não digo, apenas pelo olhar que o leitor tenha, pela paixão ou não, que coloquei no meu desenho.
as linhas, por vezes imprecisas da minha mão nem sempre segura, podem ser apenas rabiscos de cores ou uns riscos e, no entanto, falarem de amor e de paixão, de ódio e de desamor de ruas e cidades. podem transmitir um sorriso, uma cor, um corpo, um sabor.
o beijo e o abraço podem ser desenhados assim e, sem que me entendam, posso falar num poema que, não sendo escrito, é pintado com as cores da vida.
© Piedade Araújo Sol 2012-02-21
(Reeditado)

terça-feira, 24 de outubro de 2017

O Poeta

Saul Landell

Pintou palavras desordenadas
Num coração desobediente
Insatisfeito e faminto
De novas cores

Pintou algas nos cabelos
Com palavras que se formaram sombras
Diluídas nas águas
Do poema

E ficou confuso
Ao limpar os olhos
E sentir palavras
Com gosto de cloreto de sódio

© Piedade Araújo Sol 2010-06-08
(Reeditado)

terça-feira, 17 de outubro de 2017

Os beijos nús

Istvan Sandorfi

Os beijos, trocados nus
na obscuridade da casa,
fecharam a luz e a água.

A casa, no monte das madressilvas,
ficou com a cama no chão.

O sabor a mirtilos,
dos teus lábios nus nos meus,
deixou a casa sem chave,
sem porta e sem tecto.

 O luar e as estrelas,
pousaram nas minhas mãos e nas tuas.

O mundo dentro de nós
quedou-se sem amanhã, sem ontem.

Apenas nós e o hoje.

O tempo de estações
invadiu-nos sem tempo, sem preâmbulos.

Os beijos nus,
tão nus como nós quando nascemos.


© Piedade Araújo Sol 2010-11-16 
Reeditado

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Vidas Duplas

TJ  Scott
Deslizo o meu corpo sobre a tua cama deserta ainda desfeita. Revivo-te nos lençóis com as marcas do teu corpo e com o teu cheiro a plantas silvestres.

Durmo na tua cama, nestas águas furtadas que com tanto esforço vais pagando a mensalidade. Magoa-me o dividirmos as contas quando vamos jantar, tu a escolher sempre o prato mais acessível da carta e eu deixar-te pagar a tua parte. Porque se pagasse tudo irias pressentir de algo que eu não quero que saibas.

Não sabes quem sou, talvez nunca venhas a saber quem sou eu na realidade. 

Não sabes nada de mim. Nada vezes nada, resumido a nada. Mas talvez adivinhes o ilícito do corpo que trago impotente nos olhos, talvez que o teu instinto de mulher não queira questionar os silêncios inconfessáveis que me devoram a alma.

Foi essa a minha condição. Nada de perguntas!

Estou cansado! Tão cansado de tudo! De andar de viagem em viagem, de não saber quando é a próxima etapa. De partir com medo que um dia quando volte já não estejas aqui à minha espera.

Amanhã resolvo isto, digo sempre de mim para mim. Amanhã! Amanhã! E amanhã pode ser tarde. Demasiado tarde para mim e para ti e para os sonhos que desenhei além de ti e de mim.

Tu ris, dizes que gostas de rir e assim sentes-te bem. E por vezes o teu riso é um esgar para enganar o que sentes, quando me vês pegar na mala azul com rodinhas e seguir para o aeroporto. Mas sabes, eu sei que mentes. Mentes como eu também minto a mim próprio a ti e a tudo o que me rodeia.

Mentes sempre, pois no outro dia quando voltei para trás porque o voo tinha sido cancelado, encontrei-te deitada sobre a cama, onde agora estou. Estavas deitada na posição fetal e voltada para o postigo, por onde uma réstia de luz mal te distinguia. Choravas baixinho. Disfarçaste e alegaste estar constipada.

Tens medo de assumir o que temos e nem sei se temos alguma coisa, sei apenas que delimitei um prazo. Reformo-me “disto” aos quarenta anos e vou viver contigo de país em país. Talvez me refugie numa ilha junto ao mar e compre um barco onde possa viver contigo.

Talvez não tenhas mais que andar a fazer poupanças para pagar a renda destas águas furtadas e faças aquilo que gostas. Continuares a pintar o teu mar de verde e o céu de azul. Talvez eu não tenha que andar mais de aeroporto em aeroporto com a mala azul de rodinhas atrás de mim, sempre receoso do tiro que me persegue nos sonhos.

Nem sabes meu nome, pelo menos o que está nos documentos verdadeiros. Mas será esse que passarei a usar. Assim tentarei esquecer este que uso agora e esquecerei quem fui.

Sinto os olhos cansados, tão cansados, as pálpebras parecem-me de chumbo, quero abri-los e nem consigo.

Está decidido, amanhã resolvo isto....

(Obs:Este texto é pura ficção, qualquer semelhança com factos reais será mera coincidência)

©Piedade Araújo Sol  08-10-2007
(Reeditado)

Um anjo na terra


São cinco horas da madrugada.
Não choveu, e no entanto paira no ar uma forte fragrância a terra molhada, como se após uma noite de chuva.
Uma mistura de odores que se diriam enigmáticos, nesta madrugada em que não consigo conciliar o meu sono.
Despertou-me este cheiro de terra molhada com uma mistura de maresia, uma misteriosa cadência de sons e murmúrios,
Vejo um castelo de pedra negra e cinzenta, e um guerreiro muito ao longe com uma cruz azul cravejada de diamantes ao peito, e a mesma cruz bordada na manga esquerda do seu traje. Tem no dedo anelar esquerdo, um anel com um brasão simbolizando um rio de água e um sol resplandecente.
Fecho os olhos e procuro alucinada as minhas asas. Tenho de me transformar em anjo. Tenho de prolongar este momento, e poder voar nas asas da minha imaginação. Quero aspirar o cheiro da terra molhada, e suspensa no tempo, rever a minha longínqua Escócia e o regresso do meu guerreiro de mais uma das suas conquistas.
Que estranho! É tudo tão irreal e tão efémero que se desvanece na minha memória, e não lhe consigo ver o rosto. Não sei se sonhei, se aconteceu mesmo ou se tudo é fruto de mais uma fantasia, e divagação.
São cinco horas da madrugada.
Levanto-me e vou à varanda. Está tudo tão calmo e sereno. As águas da baía repousam pachorrentas e o sol teima já em espalhar os seus raios sobre a cidade.
Olho e não vejo castelo nenhum, nem guerreiro, nem anel com brasão.
O ar está sem cheiro.
É só mais um dia a nascer.
Olho a mesa da entrada.
Que estranho!
Está lá um fio de prata com uma cruz azul cravejada de diamantes... que eu não conheço.
Nunca soube como lá apareceu, mas ainda hoje a trago ao peito...

 © Piedade Araújo Sol  2004-08-01
(reedição)

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Um dia que não vem no calendário

Saul Landell
Cheguei numa manhã sem madrugada
num dia que não vem no calendário
e vivi uma vida desvairada
com música amor e sol
dormi em esteiras duras
à luz do luar e passeei nua
por bosques por desbravar
nadei em rios frios
com os peixes a me acompanhar
bebi água em nascentes virgens
e suguei o suco de cocos ovais
comi frutos exóticos
de árvores verdes
amargos e doces
fáceis de mastigar
falei com as aves
até elas me entenderem
e levarem meus recados
ao mundo artificial
dancei ao sabor da aragem
me enlaçando ternamente
e fui criança mulher
ninfa desconhecida
num mundo por descobrir
aspirei o perfume de flores
verdes, azuis e amarelas
e cores por decifrar
e julguei-me ser uma delas
percorri montanhas e vales
montada numa gaivota e vi
que existia sementes por germinar
mas a chuva caiu suavemente
ao fim dum dia sem noite
porque as noites não são possíveis
num dia que não vem na calendário

© Piedade Araújo Sol Jan/2005
Nota: Reedito este poema escrito há muito tempo, mas mesmo com as suas falhas, não lhe quis mexer, para preservar a sua autenticidade.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Fantasias

 saul landell

Um dia apareceu na praça uma estátua,
e, nunca ninguém soube como ali surgiu.

Algum tempo depois,
os velhos da praia juraram,
que em noites de temporal,
assomavam em seus olhos de pedra , lágrimas,
e que era um aviso para não saírem para o mar.

Talvez nem existam lágrimas,
nem estátua,
nem fantasmas para me,
turvar o colorido do tempo,
e o cheiro a maresia que me traz o vento.

Caminho, sem me questionar
o tempo, ou o chilrear dos pássaros,
apenas caminho,
ao sabor dos passos que me levam,
na sonoridade do dia e do momento.

©Piedade Araújo Sol 2017-09-12

terça-feira, 5 de setembro de 2017

pensamentos

Escha Van Den Bogerd

penso muitas vezes na impossibilidade que se torna possível,
e vezes _____outras no possível que se torna impossível.

um misto de pensamento  contraproducente,
ou apenas a necessidade da contrariedade,
para não deixar morrer,
uma partícula de um pensamento,
que antecede a disputa interior,
ou apenas,
a carência,
de questionar o momento,
e o acaso.

penso e sorrio perante as dúvidas que,
me assaltam em noites de insónias,
violentas e febris onde o possível,
será sempre impossível, e vice-versa.

©Piedade Araújo Sol 2017-09-04