terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

eu posso desenhar um poema


eu posso desenhar um poema. é como escrever, só que de maneira diferente. com o meu desenho eu posso transmitir a sensibilidade das palavras que não digo, apenas pelo olhar que o leitor tenha, pela paixão ou não, que coloquei no meu desenho.


as linhas, por vezes imprecisas da minha mão nem sempre segura, podem ser apenas rabiscos de cores ou uns riscos e, no entanto, falarem de amor e de paixão, de ódio e de desamor de ruas e cidades. podem transmitir um sorriso, uma cor, um corpo, um sabor.

o beijo e o abraço podem ser desenhados assim e, sem que me entendam, posso falar num poema que, não sendo escrito, é pintado com as cores da vida.
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© Piedade Araújo Sol 2012-02-21
Foto: Rafał_M

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Um frio



Um frio brando percorre a casa. Ninguém se lembra das cortinas que cobriam as janelas. Lá fora os pássaros debicam os frutos maduros não colhidos.  Os trilhos para o regato – seco - esvaíram-se.

Ali ainda sobrevivem as paredes do moinho que outrora girou em mãos calejadas pela sorte – madrasta ou não.  E os dedos esgotados escrevem solidão nas pedras de granito gastas pelo tempo, massacradas pelo vento – agreste – eternamente.
Até as letras acabaram por tombar, decepadas com golpes de facas, lâminas que incrustam o uivo do vento no lamento da tarde.

Um frio brando goteja na memória das paredes da casa desamparada – de velha – num país de estátuas que pululam nos corredores do poder e se entranham no tempo sem tempo de ninguém e de todos – nós.

Sei dos labirintos do sol – morno - que em labaredas varre o céu, ainda e sempre azul.

Mas é um frio branco que escorre pelos dias sem o sabor da revolta, deslavrada no sal das lágrimas que se confundem com o vento em seu perpétuo lamento…
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© Piedade Araújo Sol  2012-02-07
foto: asiasido